Pelo Direito à Diferença
No ano lectivo 1997/8, o ano seguinte ao meu estágio profissional, fiquei colocado numa escola da periferia do grande Porto, para substituir uma professora que ia dar à luz uma criança, abençoada, diga-se, porque foi graças a ela que obtive trabalho.
Os alunos eram entusiasmantes, tinham essa alegria e boa vontade típica do interior e foi com alguma naturalidade que decidi organizar uma visita à EXPO 98, para lá levá-los, eles, que nunca sequer tinham ido a Lisboa.
Acontece que, entretanto, a colega que eu estava a substituir voltou ao serviço, e o meu horário ficou reduzido a seis horas - as que ela tinha de redução - e a quarenta contos de ordenado.
Mas a visita continuava programada e os alunos – incluindo os que já nem sequer eram meus – pediram-me para não desistir.
Quem, entretanto, desistiu do projecto, foram os professores, efectivos da escola em causa, dando o dito pelo não dito, iriam à Expo com os filhos.
Apenas um professor, um Joaquim, de informática, contratado como eu, não o fez. Ainda assim, faltavam-me, pelo menos, mais dois professores, afinal eram duas turmas, só este número de alunos viabilizaria à visita.
Como resolvi isto? A Beta, na altura minha namorada, acompanhou-nos, agora professora de Inglês, e a Magui, uma amiga da minha irmã, tradutora, também agora professora, de Português, para variar.
E assim fomos, com uma responsabilidade do tamanho do mundo em cima dos meus ombros, tudo para mostrar a quarenta e seis adolescentes o melhor do seu país, tudo para apreciar o seu ar maravilhado e esperançado.
Desde aí, a minha revolta para com os meus colegas efectivos nunca mais se apaziguou.
Volvidos dez anos e outras tantas escolas, a história repete-se.
Por um lado, adolescentes com ânsia de viver, do outro, uma massa de docentes, digamos oitenta por cento, alicerçados em vícios e conformismos, preocupados com as suas regalias, com os seus outros trabalhos e em debitarem sabedoria em quatro manhãs por semana, incapazes de promoverem projectos, de ficarem na escola um minuto além do seu horário, de falarem informalmente com os alunos, de ajudarem os mais novos e, sobretudo, de fazerem outra coisa além de se queixarem.
Nisto, são mestres, é sistema praqui, é alunos não sei quê pracolá, é a adse que demora a pagar, é o raio do dt que quer informações, é a reunião de tarde, é aquela que não se sabe vestir, tudo serve para apurar o espírito crítico e nisto se resume toda a sua actividade extra-lectiva.
Que isso é assim, não tenho nenhuma dúvida, mas o pior, o pior mesmo, não é isso, é antes o modo como eles encaram os outros, os maluquinhos que querem fazer coisas, que gostam do que fazem e que sabem que é graças aos alunos que eles ganham a sua vida.
É por isso que eu sou a favor da avaliação dos docentes, é por isso que acho que quem trabalha mais deve também ganhar mais, que se deve premiar o mérito e o empenho, que se deve tudo fazer para melhorar a aprendizagem dos alunos, que se devem preparar aulas dinâmicas, que é proibido faltar arbitrariamente, que devem haver reuniões, que quem ganha mais deve ter maiores responsabilidades e que quem nada faz não pode ter garantido o seu vencimento e a uma copiosa reforma aos cinquenta anos de idade.
Que a avaliação proposta por este governo não presta, também não tenho dúvidas, é simplesmente um artifício e não foi devidamente preparada, tendo transferido todo o ónus para os próprios docentes, de repente, avaliadores, sem qualquer experiência para tal, não sendo certamente este modelo que vai melhorar a escola pública, muito pelo contrário, vai liquidá-la.
E assim me vejo, ao fim deste tempo todo, nesta insustentável situação, querer ser, e não-ser, avaliado, logo eu, cujo arguto espírito crítico não faz mais do que avaliar, a mim mesmo, aos outros e a tudo que me rodeia.
Olá!
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
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caramba! é que concordo mesmo contigo! beijinhos na então tua namorada beta e em ti*
ResponderExcluir... creio que só te resta mesmo manteres-te firme às tuas convicções e acreditar que melhores dias virão. tu, com os teus senãos, e nós, os de outras profissões, com os nossos, caro stress. a vida não está definitivamente numa fase fácil. só ainda não percebi se a fase é a do ano-dois-mil-e-picos-do-século-vinte-e-um ou a dos nossos-tempos-de-adultos-dos-trinta-e-picos... ;)
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